Os Tincoâns – história da música baiana com influência afro

Formado inicialmente por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira, os Tincoãs – cujo nome é originário de uma ave que habita o cerrado brasileiro – iniciou sua carreira em 1960 no programa da TV Itapoã “Escada para o Sucesso”, interpretando canções, em sua maioria boleros, inspirados no sucesso do Trio Irakitan. Chegaram inclusive a gravar um disco intitulado “Meu último bolero”, sem alcançar o êxito esperado. Em 1963 Erivaldo desligou-se do grupo e a este foi incorporado outro componente, Mateus, que com os demais formaria a base principal do conjunto. Renovaram o repertório e partiram para adaptar os cantos de candomblé, sambas de roda e cantos sacros católicos. Mas foram os terreiros de Candomblé que deram a base principal da musicalidade dos Tincoãs. Em 1973 gravam o segundo disco produzido por Adelzon Alves, e o primeiro como representantes legítimos da música afro-baiana, este LP é um marco importante da música brasileira, não apenas pela qualidade das músicas, como também pelo arranjo com características de coral feitos a partir de canções oriundas dos terreiros de candomblé, tendo como base apenas quatro instrumentos: violão, atabaque, agogô e cabaça. Este disco também revela o talento dos componentes como compositores, principalmente Mateus e Dadinho, que assinam a maioria das músicas.

Um dos destaques do disco é “Deixa a gira girá”, canção de origem folclórica, adaptada pelo trio com muito talento, e uma das mais executadas quando se apresentavam em público. Merece referencia também “Iansã Mãe Virgem”, “Sabiá roxa”, “Na beira do mar”, “Saudação aos orixás” e “Capela da Ajuda”, que fazem um belo painel da cultura negra do recôncavo baiano. Principalmente a última, que faz referência explícita a uma das poucas construções religiosas da Bahia de estilo católico, mas que cultua e abriga em seu interior rituais da tradição africana.Com produção musical do maestro Lindolfo Gaya, o LP tornou-se recordista de vendas na ocasião de seu lançamento. Não pelo ineditismo de seu repertório, já que muitos outros discos com temática afro já haviam sido lançados no mercado. O seu diferencial esta na beleza plástica das canções e da perfeita harmonia vocal do grupo, o único no país que conseguiu fielmente traduzir o sentimento e a musicalidade de nossas tradições negras, numa demonstração de afirmação da identidade de uma cultura que nos engrandece e nos faz ver o quanto devemos aprender com ela. Mesmo porque já faz parte de nossa formação, e a ela devemos o privilégio de conviver com esta mestiçagem que tanto nos orgulha e é a responsável pela formação da identidade cultural brasileira. Ouvir o disco dos Tincoãs é reafirmar a certeza de que não seríamos um país tão rico se não fosse a nossa ancestralidade africana, pois ela traduz o mais autentico sentimento de brasilidade que carregamos.

Mas esse texto sobre o primeiro disco dos Tincoãs não poderia terminar sem falarmos também sobre a trajetória ocorrida logo após o seu lançamento.

Em 1975 a primeira grande baixa no grupo ocorre com a morte de Heraldo, depois de gravar um compacto e uma faixa, “Banzo”, no LP da trilha sonora da novela Escrava Isaura. A lacuna foi preenchida com a entrada de Morais, permanecendo por pouco tempo, mas participando do terceiro LP do grupo, “O Africanito”, lançado em 1975. Logo depois, substituindo Morais, foi incorporado ao trio o vocalista Badu, mantendo dessa forma a tradição e a qualidade musical do grupo. No ano de 1977 gravaram um outro disco destacando-se a música “Cordeiro de Nana”, de Mateus e Dadinho

Em 1983 Os Tincoãs foram para Angola para temporada de uma semana em Luanda, e lá se estabeleceram, participando de projetos da Secretaria de Estado da Cultura de Angola, que entre suas prioridades visava identificar valores angolanos na cultura e na música brasileira, além de estabelecer ligações entre o culto angolano e o candomblé praticado no Brasil. Nessa ocasião gravaram o disco Afro Canto Coral Barroco, com a participação do coral dos Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro, sob a regência do maestro Leonardo Bruno e produção de Adelzon Alves. Este disco permaneceu inédito, só sendo lançado em 2003, portanto vinte após a sua gravação.

Em 1984 Badu desligou-se do grupo, porém Mateus e Dadinho permaneceram juntos e em 1985 gravaram um disco no Brasil pela gravadora CID, que foi lançado em Angola. No país que abraçaram trabalharam em Luanda, Huambo, Lubango, Benguela, Namibe e Bengo e puderam ver de perto as batalhas que redundaram na guerra pela independência. Com a morte de Dadinho em 2000 o grupo se desfez, mas deixou um legado dos mais primorosos para a música popular brasileira, como um dos principais representantes das raízes de nossa música de origem africana. Discos e músicas inesquecíveis.

Músicas: 

01- Deixa a gira girá 
(Adap. Mateus, Dadinho e Heraldo)
02- Iansã, mãe virgem 
(Mateus e Dadinho)
03- Sabiá roxa 
(Adap. Mateus, Dadinho e Heraldo)
04- Ogundê 
(Adap. Mateus e Dadinho)
05- Na beira do mar 
(Mateus, Dadinho)
06- Raposa e guará 
(Adap. Mateus e Dadinho)
07- Saudações aos orixás 
(Adap. Mateus e Dadinho)
08- Canto pra Iemanjá 
(Mateus e Dadinho)
09- Capela d’Ajuda 
(Adap. Mateus, Dadinho e Heraldo)
10- Obaluaê 
(Adap. Mateus, Dadinho e Heraldo)
11- A força da Jurema 
(Adap. Mateus, Dadinho e Heraldo)
12- Embola, embola 
(Adap. Mateus e Dadinho)

 

Ficha TécnicaOs Tincoãs

Diretor de produção: Milton Miranda
Diretor musical: Maestro Lindolfo Gaya
Assistente de produção: Adelzon Alves
Diretor técnico: Z. J. Merky
Técnicos de gravação: Nivaldo e Toninho
Técnico de laboratório: Reny R. Lippi
Técnico de remixagem: Jorge Teixeira
Lay-out: Joselito

Por: Luiz Américo Lisboa Junior

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