Polêmico já antes de ser publicado, Diasporá é estreia de Fernando Conceição na ficção

Professor universitário e jornalista, Fernando Conceição, 53 anos, não tem medo do embate e sabe que divide opiniões. Se outros tantos buscam fugir da marca da polêmica, Fernando parece não se incomodar com ela. O baiano lança Diasporá (Casarão do Verbo, R$ 35/ 399 págs.), sua primeira ficção.

A obra cita personagens reais e já chega envolvida em polêmica com a Secretaria da Cultura do Estado da Bahia. Fundador do Província da Bahia, jornal que circulou em Salvador no início dos anos 2000, Fernando criou diversos personagens. Entre eles, um negro nascido na favela que tenta ser eleito prefeito de Salvador. Ele disputa com um candidato judeu, Cid Kohen – inspirado em Mário Kertész, segundo Fernando. Confira trechos da entrevista.

Quais inquietações te levaram a fazer agora sua primeira obra de ficção?
A necessidade de recontar fatos da história de Salvador nos últimos 40 anos e a disputa de poder político travada no processo de reconstrução da democracia após a Ditadura Militar.

A narrativa descreve uma possível disputa eleitoral pelo cargo majoritário de Salvador, entre Ivonildo Cruz, um candidato negro; e um branco, Cid Kohen, que é judeu. Um livro baseado em fatos reais?
Tomei como fonte histórica um episódio ocorrido em Salvador, com a reconquista do direito de votar, para criar uma ficção, e como o movimento negro participou desse processo, em 1985 (nota: o candidato negro era Edvaldo Brito, atual vice-prefeito de Salvador; e Mário Kertész, que foi eleito na ocasião). Mas o romance é atemporal.

Em uma área sem opções de lazer, Ivonildo busca refúgio nos livros. Essa realidade ainda é distante das periferias da capital baiana?
 Não, é muito comum nas comunidades carentes. Ele é um autodidata, um personagem síntese de muitos sujeitos hoje, alguém que quer sair daquela condição de miserabilidade. Se torna um economista e um professor universitário de renome.

Você não poupa as tintas fortes nas cenas de violência. Seria uma tentativa de aproximar leitores de classe média e alta para um universo pouco conhecido?
Sim. Faço referência a Charles Dickens, que colocou tintas fortes para descrever a situação social na Inglaterra pós-Revolução Industrial. Outros autores me influenciaram, como Tolstói, em Guerra e Paz. O livro é fruto de pesquisa histórica e literária. Então, esse foi meu objetivo, sim, essa aproximação. Dos dois lados. Descrevo a situação nesses guetos e também as discussões de cúpula das elites, que ainda são desconhecidas.

Em um trecho, há uma equipe de uma programa sensacionalista de TV, formato que tem crescido em Salvador. Como eles retratam o jovem negro?
Várias pesquisas estão sendo feitas, demonstrando que isso faz parte de uma estratégia ideológica que tenta difundir esse estereótipo de violência nas comunidades carentes, onde estão os pretos e os pobres. É preciso fazer uma crítica a esse modelo, a esse ‘espreme e sai sangue’. Isso fere princípios da Constituição. Essas pessoas não reagem porque estão mal informadas sobre os seus direitos.

Em algumas partes do livro, parece não haver a possibilidade de redenção. Você é pessimista em relação à possibilidade de mudanças?
O livro fala da condição humana. Não é o negro que é bonzinho e o branco que é mau. Nós somos bons e maus ao mesmo tempo. Não sou pessimista, sou realista. Nós somos desse jeito, somos assim. Não há santo entre meus personagens. São santos, mas também demônios.

A representação do negro baiano na literatura ainda está, de alguma forma, ligada à visão de Jorge Amado?
Para quem é de fora, ainda está. É essa coisa malemolente, festeira. É Gabriela, Cravo e Canela. É a mulata estereotipada como objeto sexual. Jorge Amado foi muito importante porque colocou personagens negras na linha de frente de suas obras, como Jubiabá e Tenda dos Milagres. Mas a visão dele ainda é de fora, ele era branco escrevendo sobre um sujeito que admirava. Busquei fugir desses estereótipos, desse baiano sexualizado ao extremo. Somos mais que isso.

Mas o sexo está presente em diversos trechos do livro. Isso não reforça a ideia da mulher negra como uma máquina sexual?
Michel Foucault (pensador francês) já dizia: o sexo é a nossa marca. Os personagens estão fazendo sexo o tempo todo, mas as pessoas geralmente gostam de sexo, eu não tinha que esconder.

O seu editor, Rosel Soares, acredita que seu livro foi escrito com rancor, “como convém a toda grande obra”, segundo ele. Há rancor no livro?
Não definiria assim. Foi escrito depois de muito trabalho de pesquisa, com suor e sangue. Nesse sentido, tentei colocar no livro, como qualquer um faria, o meu jeito de ser. Para alguns que me conhecem, sou um sujeito chato e rancoroso. Levei, para a literatura, a forma que me comporto. Espero que o livro incomode, não foi feito para agradar ninguém. Quis fazer um registro ficcional de parte de nossa realidade.

Por que manter o título na grafia grega, na capa?
Foi uma opção literária. Etmologicamente, a palavra diáspora vem do grego, significa dispersão, pessoas forçadas a sair de seu lugar por perseguições. No romance, a diáspora não se refere somente a essa dispersão geográfica, mas à diáspora interna. Personagens sempre em busca de outros espaços.

Em 1995, você propôs o pagamento da indenização de US$ 102 mil para cada afrodescendente, como forma de reparação social, fato que causou polêmica nos meios intelectuais e acadêmicos. Continua defendendo essa ideia?
Existe um princípio, no Direito, que é o da reparação, que foi usado depois da Segunda Guerra Mundial, com os judeus. Os EUA também fizeram isso com os nativos americanos. Qualquer grupo que foi espoliado, quando alterada a situação histórica, tem o direito de ser reparado. No Brasil, esse debate surgiu na década de 90. Fizemos um cálculo do valor do trabalho escravo no Brasil e chegamos a uma soma de US$ 6,5 trilhões. Apresentamos essa conta à Justiça. A União respondeu que deveríamos cobrar a Portugal. Ainda defendo isso, esse pagamento.

Na semana passada, entrevistamos o filósofo Luiz Felipe Pondé. Ele afirma acreditar na existência de um fundamentalismo afro aqui na Bahia, segundo o qual apenas a cultura de origem africana é válida. Como o senhor analisa isso? Acredita nesse quadro?
Me soou artificial. É não conhecer a diversidade cultural e social da Bahia. Temos forte influência indígena. Quando se fala da influência africana, se fala de Salvador e Recôncavo. E, mesmo assim, não é algo homogêneo.

Os livros trabalhados em salas de aula ainda são basicamente europeus. Qual o reflexo disso na formação do estudante?
A nossa formação é eurocêntrica, e isso gera uma quase total alienação para o que esteja mais ligado à realidade circundante. Aqui, estudamos autores que têm pouco a ver conosco, conhecemos pouco a produção local.

Qual seu próximo projeto?
Estou focando no projeto da biografia do (geógrafo baiano) Milton Santos (1926–2001), um dos intelectuais mais importantes do mundo, na reflexão sobre a geografia e sobre os rumos da financialização da vida, com o advento da globalização econômica. O projeto de produzir a sua biografia é importante para tentar demonstrar quão necessária é a autonomia intelectual, da qual ele é exemplo lapidar.

Estado analisa livro e pode cortar verba de edital
Diasporá mal chegou nas livrarias e já está envolvido em polêmicas. O livro do jornalista Fernando Conceição foi premiado em dois editais da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia (Secult) – criação literária, em 2008; e demanda espontânea, em 2011. O primeiro foi no valor de R$ 18 mil; o segundo, R$ 30 mil. Fernando reclama que esta segunda parte, que seria destinada à editora para custear a edição, não foi paga. A Secult afirma que a decisão foi tomada após análise do livro.

A questão foi encaminhada no dia 7 à Procuradoria Geral do Estado para que esta se pronuncie sobre a possibilidade de algumas partes serem interpretadas como ofensa à intimidade e à imagem de pessoas públicas citadas em Diasporá (leia trechos do livro). Fernando se defende. “A citação de nomes de pessoas reais que fizeram a história de nossa sociedade é um recurso narrativo de aproximação com a realidade, mas não é a realidade. Tudo o que está ali é uma invenção, não um registro histórico ou científico”, diz.

Veja trechos do livro:
“Rafael, amigo e pai de santo no Lobato, aconselhava-o a ter cuidado com o desperdício das energias com mulheres tantas. Era suspeito ao falar, Rafael: Homossexual. Normal, mas que conhecimento empírico possuía? Ao que saiba, nenhum. Tinha tido um caso com Pierre Verger e outros famosos, talvez mesmo o tarado do Waly Salomão, quando jovem. Bichas burguesas que recrutavam suas presas entre adolescentes cor de bronze nas periferias. Cinquentão, Rafael agora vivia maritalmente com o dono de uma sucata da  Suburbana.” (pág. 217)

“Eis aqui, depois de muitos estudos e planejamentos feitos por nós, com o auxílio de técnicos diversos e a supervisão de nosso inestimável Dagoberto Ruído, o projeto para a construção do moderníssimo trem urbano de Salvador. –Como é que é?!– surpreendeu-se Kohen. Sim, meu caro, o nosso metrô – continuou o empreiteiro. – Você vai apresentar essa novidade na reta final de campanha. Vai construir o metrô de Salvador! Serão 65 quilômetros de linhas, estações e trens ultramodernos, ligando o centro a todos os cantos da periferia do município, da suburbana ao aeroporto, pelo canteiro central da Paralela.” (pág. 367)

Fonte: Jornal CORREIO

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