Entrevista exclusiva com Emanoel Araújo

Emanoel Araújo, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira-Bahia (foto: Wilton Bernardo

Emanoel Araújo esteve em Salvador trazendo para 2 realizações importantes: uma foi trazer sua exposição de esculturas na Galeria Paulo Darzé (abertura aconteceu em 20/10/11) depois de 25 anos sem expor em Salvador; a segunda realização, foi foi como curador das exposições que abriram o tão esperado “Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – Bahia” em 13 de novembro de 2011. Poucos dias antes da abertura do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, eu tive a oportunidade de entrevistar o artista e bater um papo sobre sua trajetória, desde seu despertar artístico em Santo Amaro, quando menino a experimentar a produção de arte com seu então amigo Caetano Veloso. Leia e conheça um pouco mais sobre o artista Emanoel Araújo.

Escultura de Emanoel Araújo


Wilton Bernardo: Escultor, desenhista, ilustrador, figurinista, gravador, cenógrafo, pintor, curador e museólogo. Eu pesquisei sobre você e vi todas essas atividades relacionada a sua atuação profissional. Eu queria que você falasse sobre essa versatilidade.
Emanoel Araújo: Eu acho que é uma trajetória de tanto tempo… 50 anos, então você vai experimentando coisas e ai termina sendo designado por tudo isso mas na realidade eu sou mesmo é um escultor e por acaso um gestor cultural. O “por acaso” é porque pintou no meu caminho essa oportunidade de gestão cultural. Eu achei interessante, abracei a possibilidade de fazer esse tipo de trabalho até como compromisso político de contribuição para a sociedade brasileira e para a cultura para o Brasil.

WB: Sua primeira exposição aconteceu em 1959. Onde aconteceu? Santo Amaro ou Salvador? O que você apresentou?
Emanoel Araújo:
Aconteceu em Santo Amaro. Uma delas foi no colégio em que eu estudava, no Centro Educacional Teodoro Sampaio. Outra foi na Biblioteca Pública de Santo Amaro. A exposição no Colégio Teodoro Sampaio, fiz com Caetano Veloso que também naquela época era pintor. Eu apresentei uma série de guaches abstratos e Caetano apresentou paisagens de Santo Amaro. Então.daí, fui pra a segunda exposição na Biblioteca. Mas era uma coisa amadora que não tinha nenhuma relevância a não ser a possibilidade de uma carreira que se apresentava mas estava longe de ser algo significativo.

WB: Mas já era um norte no sentido de um interesse não é?
Emanoel Araújo: Sim. Era… tanto que Caetano virou músico e eu fui fazer Belas Artes, e portanto, me envolvi na área de artes plásticas até hoje. Mas foi, de qualquer, um começo.
O que ficou e o que mudou do início do trabalho pra hoje. Claro que, no início, como você mesmo falou.
Meu trabalho mudou muito. Foi passando por muitas fases. Foi num desenvolvimento muito rápido porque eu trabalho muito então saiu da figuração para a abstração. Depois foi para a geometria e nela estou até hoje. Então mudou muito. Isso foi um caminho percorrido. Daí depois de todo esse tempo você fico até perplexo de tanto trabalho que foi feito, mas é assim mesmo.

Emanoel Araújo, junto ao painel de abertura da exposição de Mestre DIdi, no Museu Nacional da CUltura Afro-Brasileira

WB: Eu vi um vídeo seu, no site do Itaú Cultural onde você fala sobre as cores. Você comenta que usava muitas cores, mas a quantidade de cores foi sendo reduzida até o branco. Claro que do início até agora a mudança foi enorme, mas quando aconteceu essa mudança nas cores?
Emanoel Araújo: A questão da cor estava muito ainda ligada a questão da gravura. O relevo, as esculturas  foram caminhando ainda parecido nesse aspecto de uso de cor, com as gravuras então tinha os contrastes… vermelhos, pretos, amarelos. Foram períodos em que fui simplificando de forma e também de cor. Então, essa exposição por exemplo que eu trouxe pra Salvador toda branca, tem obras mais antigas. Mas eu acho que é muito mais uma necessidade interior de você de repente estar buscando a luz, a claridade. Então a coisa aparece… mas eu gosto muito de usar o branco em peças muito grande. Por exemplo no Palácio Itamaraty (Brasília), algumas obras no Palácio da Aclamação de Cerimonial e Museu (Corredor da Vitória, Salvador-BA) que trabalhei com branco e preto. São coisa que dão até uma certa harmonia até, mas eu não me afastei totalmente da cor. De vez em quando pinta a cor.

WB: Em 1988 foi convidado para lecionar artes gráficas e escultura no Art College the City University of New York.  Antes dessa data você já lecionava?
Emanoel Araújo:  Eu nunca gostei. Tanto não gostei que não segui a carreira acadêmica. Acho que … não é mesmo do meu temperamento. Mas essa experiência de Nova York foi interessante porque era um professor visitante morando em Nova York e não tinha a obrigação de aulas regulares. Tinha seqüências de aulas mas era muito mais livre do que a Academia propriamente dita. Mas me aflige o fato de  ter que passar um assunto que é tão abstrato que é ensinar arte.  Como você transforma alguém em artista? É difícil. Então esse envolvimento de professor, eu não tenho talento pra ele, muito embora, eu acabe passando conhecimento para quem trabalha comigo de uma forma prática. São pessoas que trabalham e é também uma maneira de passar conhecimento mas sem a formalidade de ser “o professor”.

WB: De 1992 a 2002, esteve à frente te da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Entre 1981 e 1983 dirigiu o Museu de Arte da Bahia. Desde 2004 está à frente do Museu Afro de São Paulo. Como tem sido esse trabalhos com Museus importantes?
Emanoel Araújo:
Esses trabalhos começaram aqui nos anos 60 com o Museu de Feira de Santana. Mas começou ali com Oton, Fernando Frankin e com Odorico Tavares. Fomos lá montar o Museu de Chateaubriand que tinha conseguido uma coleção pra o Museu de Feira de Santana. Ficamos lá trabalhando montando o Museu. Aqui foi um começo muito remoto. Depois com uma situação de doença e depois de morte do Pedreira, Antonio Carlos(ACM) me convidou pra dirigir o Museu e eu aceitei. Morava em São Paulo mas voltei a Salvador pra desenvolver esse trabalho, onde fiquei 2 anos no Museu de Arte da Bahia. Promovi a mudança do Museu de Nazaré para a Vitória. Restauramos o prédio, restauramos o acervo. Montei o Museu com caráter muito mais voltado para o Design. Um Museu eclético de arte-decorativa com mobiliário, prataria, pintura. Esses museu do estado são geralmente no Brasil, são Museus onde eles foram colhendo coisas. Assim fiquei dois anos.
Depois fui convidado para trabalhar com a Pinacoteca em 1992 onde fiquei por 10 anos. Por sina minha… é destino (risos), peguei a Pinacoteca que era uma coisa complexa em relação a São Paulo que é uma cidade importante. E o Museu estava justamente no Jardim da Luz com o jardim dominado por prostitutas e por traficantes. O prédio num estado deplorável. E por acaso eu peguei 3 eu  três pessoas foram fundamentais para a reforma do Museu, Entre eles o governador Mário Covas e o Marcos Mendonça(que era secretário de Cultura) e ai conseguimos fazer uma substancial reforma. Chamei o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, montamos um estúdio do Museu, e assim foi possível realizar a reforma do jeito que foi. Houve as exposições (Entre elas, Auguste Rodrin: A porta do inferno, que teve mais de 200 mil visitas; De Picasso a Barceló, com obras do Museu Nacional Reina Sofia, de Barcelona, entre outras). As ações importantes também contribuíram. Não foram só ações pra acabar com a prostituição em torno do jardim, mas de integrar o jardim à Pinacoteca. Em 2002 eu sai. Eu estava muito cansado e meu trabalho estava parado. Meu trabalho sempre sofre alterações dessa ordem. Toda vez que faço um trabalho público, ele fica em stand by.

WB: Isso que eu estava aqui curioso pra perguntar. Como desenvolver um trabalho de arte paralelamente a uma gestão importante e que exige tanto de você?
 Emanoel Araújo: O trabalho fica em stand by, mas em 2004 eu não resisti a tentação de criar um Museu Afro em 2004, já que a prefeira Marta Suplicy tinha me proposto criar o Museu Afro-Brasil, e ai surgiu o tema, uma série de pessoas, começamos a trabalhar a idéia e em 2004 inauguramos. E hoje estou lá até agora, do qual exerço a função de curador, do qual minha coleção está lá doada pra o Museu. E pra mim é uma posição política pelo fato do Museu destinado  a história, memória e Arte dos afro-descendentes, africanos. Era um tema recorrente no meu trabalho em busca de descobrir, revelar, que negro foi, que negro é no Brasil.

WB: Agora eu vou fazer uma pergunta específica sobre esse Museu Afro: Como é o diálogo desse Museu com a comunidade, com a cidade de São Paulo?
Emanoel Araújo: O Museu ocupa um espaço privilegiado, 12 mil metros quadrados, perto do Ibirapuera, as exposições são feitas de forma a provocar cada vez mais público. Tem meses que tem 3 a 4 mil pessoas visitando. O museu está apenas com 7 anos, mas como tal, ele corresponde ao que eu sempre imaginei. Claro que precisamos ter paciência e tempo para as coisas que queremos de cultura no Brasil. Porque fazer cultura no Brasil é quase que um desespero. É uma luta, poucas pessoas ouvem e assim vai.  De qualquer forma o Museu está lá, muito bem instalado, as exposições são sempre mostras que contextualizam de certa forma o Museu. Tem um acervo de 6 mil metros quadrados. Agora tem uma grande exposição sobre o sertão. Teremos muito em breve uma exposição grande do pintor Aurelino no dia 20 de novembro e outra sobre brinquedo popular do Nordeste. Então é um trabalho constante de teimosia como de qualquer artista no Brasil. Não só pra ser um artista individual, mas quando você faz qualquer trabalho coletivo, também depende disso. É preciso tempo e esperar.
São Paulo é uma cidade muito interessante porque é uma cidade que acolhe as diversas manifestações. Tem sempre um público que você convida e ele vem. Isso é muito importante.

Emanoel Araújo, entre as obras de Mestre Didi

WB: O artista tem a disciplina e tem as vivências. As pessoas que trazem informações, e que nos influenciam direta ou indiretamente. Você poderia citar algumas dessas vivências, influências?
Emanoel Araújo: São muitas vivências, cada coisa que você faz, cada viagem.. .muito cedo eu fui pra os Estados Unidos, fui pra África. Agora mesmo estou voltando a África. Estou indo ao Benin, depois ao Senegal. Portugal, Nova York, Washington.essas vivências são fundamentais pra desenvolver um trabalho, para estar antenado com o mundo e é interessante. Mas meu foco mesmo é esse: sociedade atlântica, afro-atlântica. Esse é meu foco nesse momento, mas não quer dizer que a proposta do Museu seja um Museu de gueto. O Museu é aberto para todas as manifestações que agente possa fazer e que agente possa fazer e doar ao público do Museu.
As vivências são essas no dia-a-dia. Hoje estou aqui fazendo a exposição do mestre Didi, a exposição dos afro-descendentes e do Acervo inicial do Museu (Emanoel Araújo está sendo o curador das mostras que estarão abrindo o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira na Bahia). Logo estarei em São Paulo fazendo uma exposição sobre São Benedito, depois vou estar no Rio de janeiro fazendo a exposição de Rubens de Souza pelos seus 90 anos de nascimento. Depois vou estar em São Paulo fazendo Aurelino e David Glat… e é assim. São formas de expansão.

WB: Pra finalizar, eu gostaria de fazer 2 perguntas. Uma sobre o Este Museu Nacional sendo aberto na Bahia e outra sobre os problemas na Somaria que se estendem por anos..
Emanoel Araújo: Sobre a Somália eu não tenho idéia… a África é um continente enorme e por enquanto minha ações se desenvolve um pouco no Benin por ligações muito estreitas e inclusive emocionais com o Benin e o Senegal. Mas a África é complicada…

Emanoel Araújo, na inauguração do Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira-Bahia)

WB: Eu resolvi te perguntar isso porque há 1 mês eu vi algumas fotos da Somália sendo divulgadas na mídia, que eu achava que eram imagens do passado, e eu fiquei surpreso em ver que aquelas fotos eram atuais.
Emanoel Araújo: Somália é um caso isolado. Um país numa extrema miséria com toda essa coisa dos mercenários. Mas é um caso complicado…
Já aqui (Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira), eu estou fazendo a curadoria das exposições, eu tenho um compromisso de armar museograficamente o Museu que vai ser em abril ou maio do ano que vem(2012) que vai ser uma exposição definitiva do acervo e depois eu estarei de uma certa forma livre. O Museu terá que andar por si só, com suas pernas baianas (risos), e eu acho que por outro lado, eu vou poder contribuir na medida em que agente possa fazer um circuito com as exposições de São Paulo, para que possam vir pra cá, que possam ir pra o Rio.  Porque de uma certa forma, o Museu Afro-Brasil de São Paulo tem suscitado uma coisa muito interessante… Ele é mais novo do que esse Museu ( Afro-Brasileiro, na Bahia) que já tem 10 anos e não ficou pronto. Mas ele tem suscitado a criação do Museu Afro que vai ser criado no Rio e também no Ceará-Fortaleza. Porque cada estado do Brasil tem uma história Afro-Brasileira não é? Tem uma história de Africanos, de escravos, de negros, então caberia em cada estado brasileiro um Museu com esse perfil e com essa tipologia. Isso seria muito interessante porque o que está excluído não seria nunca mais com essa possibilidade que uma exposição circulasse entre  São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro, Fortaleza entende? Cria um circuito nacional de Museus com esse perfil. Esse é o grande papel catalisador que o Museu Afro-Brasil está fazendo de uma maneira muito sutil e silenciosa. Sem nenhum alarde.

por Wilton Bernardo
# Laço Afro

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