“O Navio Negreiro” livro de Marcus Rediker

Imagem ilustrativa

O mais baixo funcionário do tráfico de escravos recebia ração pobre, salário baixo e sua mortalidade era equivalente à dos cativos, segundo estudos de Marcus Rediker, professor de história marítima na Universidade de Pittsburgh, Pensilvânia (EUA).

Rediker reconstrói detalhes do trabalho e do convívio de escravos, marujos e capitães no livro “O Navio Negreiro: Uma História Humana”. O cotidiano do navio –doenças, motins e violência– é acompanhado de detalhes técnicos, como as principais diferenças entre os tipos de embarcação usadas para o comércio humano.

O historiador e ativista norte-americano também assina “A Hidra de Muitas Cabeças”, obra que conta a história pouco conhecida do proletariado atlântico nos séculos 17 e 18. Ambos foram publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras.

Rediker relata “três dramas” vividos na embarcação. O primeiro se dava na relação entre o capitão e sua tripulação. Na época, dizia-se que os homens que realizavam este trabalho não deveriam ter “nem nariz nem dedos delicados”, considerado um trabalho sujo em todos os sentidos.
Igualmente açoitados, o segundo drama descreve o convívio entre escravos e marujos. O conflito e a cooperação dos cativos –pessoas de classes e etnias diferentes– constituíam o terceiro drama no interior do navio. Leia um trecho do exemplar.
Muitos morreram, alguns ficaram cegos, e inúmeros se tornaram permanentemente inválidos. Assim, os capitães e as tripulações viviam em conflito permanente, como se pode deduzir até pelas alcunhas que recebiam: Samuel Dor era um violento capitão de navio negreiro; Arthur Estourado um marujo sedicioso. Cabe perguntar, em primeiro lugar, como os capitães recrutavam marujos para essas viagens terríveis, como se davam essas relações e, ainda, de forma elas mudavam depois que os escravos subiam a bordo.
As relações entre marujos e escravos – caracterizada pela imposição de rações estragadas, por sessões de açoites, violências de todo o tipo e estupros de escravas – constituíam o segundo drama. O capitão supervisionava essas relações, mas eram os marujos que executavam suas ordens de levar escravos a bordo, enfiá-los no convés inferior, alimentá-los, obrigá-los a se exercitar (“dançar”), preservar sua saúde, discipliná-los e puni-los – em suma, transformá-los pouco a pouco em artigos para o mercado internacional do trabalho. Esse drama também testemunhou a infinitamente criativa capacidade de resistência dos cativos, que ia de graves de fome ao suicídio e à insurreição aberta, mas principalmente no que se refere à língua e a conhecimentos técnicos, como por exemplo os ofícios náuticos.

Capa do livro

Serviço:
“O Navio Negreiro”
Autor: Marcus Rediker
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 456

Fonte: Folha de São Paulo

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